03:32

Cinzas de lembranças


Alanis Morrissete - Everything


"A coragem de exterminar o que nos corrói condena-nos a liberdade.
É preciso ter coragem, nos desprender do que foi, para vivermos, o que será."


Incêndio,

no sexto andar.
Lá já não havia mais nada,
mas incendiava.


Lágrimas rolavam,
mas não bastavam,

para diminuir o queimar.

Tudo se transformava em cinzas,

não existia mais nada.


Ouvia-se
gritos.
Não havia ninguém,
estava vazio.
Apenas uma caixa.

Lágrimas rolavam,
mas não bastavam.
Não faziam cessar o queimar,
do que restara.
A caixa.

Eram gritos e lágrimas,
lágrimas e gritos.
Silêncio.

Apenas ela ouvia o gritar,

desesperado, estridente.

Enquanto caixa era consumida,
pelas chamas,

onde guardara tudo,

que mais lhe valia.

Cinzas-Cinzas-Cinzas

Sem cor cinza,

negras como vazio.


A voz que escutara,
era a despedida.

A morte do que vivera,

e se ressentia,

por não mais vivenciar.


Viviam presas,
naquela caixinha,

as lembranças,

que decidiu matar.


Assassinou-as,
uma morte dolorida,
tal qual, a dor que sentia,
toda vez ,

que se permitia relembrar

Ateou fogo,
no sexto andar.
Onde morou,
com suas lembranças.


Não lhe bastou apenas,
dar adeus a vida que teve.

Ela precisou assassinar o passado,

para poder recomeçar.


Havia fogo,
no sexto andar.
Culpada,
pela morte,
do que a torturava.

Condenada,
a liberdade perpétua.
Que apenas os assassinos,
de dores,
podem gozar.

...Houve fogo,
no sexto andar...


"A coragem de exterminar o que nos corrói condena-nos a liberdade.
É preciso ter coragem, nos desprender do que foi, para vivermos, o que será."

1 comentários:

Marcelo Novaes disse...

Lendo a narrativa dessa "nostálgica incendiária", lembrei-me do incêndio em meu prédio, ocorrido há dois anos e meio, mais ou menos.
O "recomeço" de tal personagem se dá por meios drásticos...
Houve um incêndio no sexto andar...

Além disso, vc usa o pretérito mais-que-perfeito, coisa não muito habitual hoje em dia...

Muito bom!


beijos,

Marcelo.