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01:43

- - -Desbotando



Vai fingindo que está tudo certo, mesmo quando do céu, desbotam todas as cores. E não resta nada além do deserto assustadoramente cinza. Seus imaginários caem por terra, duendes e fadas criadas em um dia de sol, que virou chuva, que virou lama, que virou drama.

É da janela que assiste a todas as cenas, um cinema mudo, que lhe permite dar o tom incerto, também pudera, participar de tal trama, é um desejo inigualável, de ser telespectador inato. Para poucos, existe um registro, um traço, de um desenhista que figurava dores, e acertou em cheio na que sente aquele que se senta em frente a ausência das cores.

Tudo vira arte quando se arde, antes que o fogo queime-o por inteiro, e de tudo exista apenas o pó, que nada é mais, do que o vazio do consumido.

Existe um tempo, mesmo que esteja se esvaindo por entre dedos, de outras mãos que não as suas. Ainda perpetua, a crença imaculada de uma tragédia, real, vista como abstrata.

É permitido dissimular, acreditar no inacreditável, é permito sonhar e com isso fantasticamente torna real a possibilidade imutável de frustrar-se, mais uma vez das outras tantas, que guarda em sua gaveta trancada a dez chaves e um cadeado com o peso do mundo.

É no silêncio que se encontra as mais amplas respostas, das supostas dúvidas eloquentes que consomem o inconciente. Mas um som articulado e afinado ecoa, ao fundo de tudo...

...Esse silêncio é como uma linda dama, necessita ser conquistado, cuidado e amado. Não é fácil.

A noite chegará, o preto tomará o cinza. E mais uma vez, não se saberá, se haverão cores, para desbotar se assim tiver de ser, no remoto, próximo dia.



04:44

- - -A barreira do minuto



Quando as lágrimas molharam o seu rosto, o sorriso se desfez, e deu lugar à uma feição de tristeza, que não lhe cabia n' alma.

Quantos mundos dentro de si existiria?
Em quantos dele, ela ainda se perderia?
Existiria dentro de si, algum porto-seguro?
Alguma luz, que a guiaria?

Estas e mais perguntas, surgiam em seu pensamento, desenfreadamente frenético.
O seu corpo doía, e sentia cada parte do seu eu, se desfazendo...

...Partes de si sobre a cama.
E ela rompendo a linha de cada minuto, com tamanho drama, de dor em desespero.

05:57

- - - -Vida, Obra e Veneno


A verdade, é que por todo este tempo, todas as frases, se restringiram a serem mentiras. Minhas maiores farsas, cobiçadas. Esperadas, para serem entendidas e criticadas.

Todo este tempo dentro de mim o anseio de quando eu me livraria da prisão que estava sendo a minha vida. Quem diria, eu me prendi dentro do imenso mundo que criei, desde pequena, quando pouco sobre tudo, eu sabia. A vida me era nada, e talvez assim fosse melhor, se continuasse sendo, e eu continuaria vivendo, rompendo as barreiras e as esquecendo, sem dores, mágoas e vagas lembranças do que eu vivia, apenas o presente me bastaria, e meus sonhos. Eles me alimentariam.

Eu jurei por você que contaria, as mais belas histórias de amor e de vida, e quando as pessoas me perguntassem sobre a minha vida, eu as diria: Que escrevia com a felicidade de cada dia!

Lembro-me como se fosse hoje pela manhã, eu olhando para você e lhe prometendo o que hoje vejo que jamais cumpri, ou sequer cumprirei, a vida está sendo carrasca comigo, tenho dores, desamores e as histórias que conto, aos olhos do mundo, parecem bonitas, dramáticas, intensas, lições de vida, de alguém que jamais aceitou as pedras que existem em seu próprio caminho, e as rasteiras que a vida lhe deu.

Narro histórias, de problemas que não são meus, e talvez isso, eu faça para lembrar-me de que não sou a única esquecida por Deus.

Agradecia o meu dom de escrever, e hoje acredito que ele seja pura sina. É o meu castigo.
Sou uma mentirosa, escritora, mal filha e suícida.

Uma hipocrita bem sucedida, que sonhou desde pequena, ser como os grandes e eternos escritores, como Cecícilia. Como Clarice, e Berenice, não a conhece? É a faxineira da minha casa que em vida escreveu uma história bem mais bonita que a minha, repleta de verdades, aprendizados, e força para lidar com a batalha dura do cotidiano simples.

Desde pequena desejei ser feita sobre palavras e escrita, e hoje escrevo minha despedida, sem palavras rebuscadas, esquecendo a vaidade e transbordando verdades que eu mesma escondia.

Há razão em todo o meu sofrimento calado, meu pranto guardado, e os livros queimados, todos os que eu escrevi, estão guardados em cinzas , confesso. Eu não suportava ler as minhas mentiras, fantasiava feito uma criança, e quando abria os olhos via dilacerado o meu mundo, e eu vivia em um espaço sublime e absoluto, em preto-branco, vírgulas, pontos e linhas. Essa era a minha única vida. Criar farsas e chamá-las de minhas, meus sonhos, meus medos, que assim que terminava um página redigida, findavam.

Mas minha dor jamais deixará de ser minha, esta sim, compartilharei com a solidão a qual me condenei.

A dor de não ter desejado ter outra vida, a minha diversão se tornou profissão, me condenaram como uma máquina que jamais pára, não olhava para o mundo, e ele nem me via. Fiz dinheiro, fiz histórias, fiz planos. Mas não tive vida.
Hoje me despeço, é o fim.

Vida e Obra,
resumindo-se ao desejo de tomar essa taça de veneno, e acabar com tantas publicações em mentiras.

Eu queria ter cumprido minha maior promessa, minha grande divida.
Não encontrei a felicidade, tampouco o amor e nem paixões repentinas, e por isso...
...hoje sou apenas, uma desertora da vida.